Dia 7/05/2009 11:06:00 AM,  por autor

Veja, leitor caro, a grande modéstia e clareza sociológica que habita o ideário semi-intelectualizado de nosso Brasil, na réplica, publicada em jornal, de sua excelente besta Sr. Ricardo Silva.


SEÇÃO DO LEITOR


Como vimos em matéria do dia 03, temos um alto índice de gringos chegando ao Brasil com fins turísticos, de regiões badaladas da Europa e da América, principalmente. Os levantamentos indicam que a maioria são cidadãos metropolitanos que presumimos, não sei por que vazio motivo, buscarem algo fora do comum em terra extrangeira. Assim lhes ofertamos nossa natureza, que achamos ser aqui o de melhor. O gringo curte, mas seria precisamente esse o seu lugar perfeito para as férias? Tenho razões para desconfiar que tanto para o gringo quanto para nós o mercado turístico se mantém, dessa forma, exíguo e amedrontado, sem a saudável expansão para uma bem mais fluida, eficiente e segura, principalmente segura estadia que só as metrópoles oferecem. Assim, aqui pode ser como o lá de onde o gringo veio, sem perda de interesse turístico; aliás, com efetivos ganhos para a nossa imagem de Brasil. Estou aqui, fique logo dito, precisamente preocupado com os problemas de regiões vizinhas aos centros turísticos atuais, que seriam evitados com o deslocamento, desses centros, para nossas estáveis e exuberantes cidades grandes.

Oferecendo pacotes tropicais, temos de cuidar a todo tempo para que os podres que minam tais cenários não apareçam. Começamos, então, um verdadeiro esconde-esconde. Só deve interessar ao gringo, e concordo, a Amazônia não desmatada. Que ele não conheça a Amazônia comida pelas madeireiras, Deus nos livre! O guia de viagem, que cuida para que serras elétricas não estejam num raio audível, com a Medida Provisória 458 pensa em desistir e mudar de ramo. Mas no caso da descoberta indesejável, ainda podemos enfiar no gringo as bem diferentes praias setentrionais. Que dourado exuberante de tapetes úmidos que, graças à Borborema, são vendidos como quadro único da realidade nordestina. Oculte-se o sertão poeirento e mortal para além das chapadas. Pique-esconde!

Insistindo nesses cenários naturais só corremos riscos. E para quê? Um gringo urbano que aqui chega, pensemos, não busca tão obsessivamente nossos ambientes de natureza exótica. Pois se realmente os quisesse, puros e crus, poderia suprimir sua ambientação de hospedagem, tão familiar. O que quer o gringo é o lugar seguro, em que se possa recolher numa boa pousada para descansar os pés e gozar de comida local para amainar a fome. Decerto o turismo é uma empreitada de fim prazeroso, acredito, e muito raramente será uma excursão missionária para conhecer os infernos do mundo e a eles tentar levar a paz de espírito. Antes a paz do gringo.

Com tantas áreas pouco edênicas e pouco prazerosas próximas aos atuais focos turísticos, por que não tentamos convencer aquele gringo, acostumado às metrópoles, que aqui há uma recepção familiar, muito mais aconchegante? - e segura de más visões. Afastá-lo da Amazônia e do nordeste e trazê-lo para a gostosa densidade urbana. Sim, é uma idéia estratégica e imprescindível! Proponho que a cidade de São Paulo passe ao mais novo e eminente pólo de viagens internacionais, que seja o cartão-postal maior do Brasil.

Assim exibimos um Brasil chegado à era dos arranha-céus, da indústria e dos serviços. São Paulo, com seus cinzas de prata por fora, e tantas cores nos museus e nos cafés e nas baladas! São Paulo é nossa demonstração de riqueza, sucesso urbano e social! Quem há de não enxergá-lo? É uma esperança que devemos identificar, a que aquele gringo mal escondia, ávido de alguma identidade, no exterior, com suas metrópoles referenciais. Em condições tão privilegiadas, São Paulo é o irreparável ponto para a estada do estrangeiro. Por que não o viram antes? É por essa injustiça que vim aqui escrever e logo emergir a público minha idéia de mudança: rapidamente virá a estourar de tão inovadora!

E se nem tudo são sortes, teria apenas uma apreensão... Mais um cuidado que apreensão. Eu, que ando tanto pela cidade com olhos clínicos sobre cada canto, não quero deixar de registrar um medo, um problema irrisório, escondido, quase invisível, porém realmente perigoso se chegar a ser conhecido pelo gringo: certas pombas.

Certas pombas, não todas, certas malditas, têm desenvolvido nos últimos tempos o péssimo hábito de ciscar chicletes grudados no alfalto. É de um mau gosto extremo se as vissem fazendo isso. Malditinhas! Pois se ficassem elas de um lado, os chicletes de outro, tudo estaria bem, algum gari mal pago arrancaria o chiclete do chão e as coisas estariam em paz. Mas assim juntos, pomba e chiclete... Ora, é um perigo de imagem! Detalhe tão pequeno não pode pôr a perder esse paraíso que é São Paulo.

Então ponderemos: mesmo sendo excepcional o que engendro e prevejo a favor dessa cidade, peço às autoridades públicas que se contenham de praticá-lo até que os chicletes se tenham retirado das ruas. Ou ainda, para dar mais outra opção de solução e assim agilizar, quem sabe se pagarem (pouco, pouco para não ser oneroso) uns afastadores de pomba e chiclete. Bem, não sei, tive só uma feliz idéia para nosso turismo; se há impecilhos, porém, pelo menos nisso pensem sozinhos. Façam como for, açoitem alguns garis se não dispuserem de verbas públicas, contanto que não desperdicem minha proposta, deixem de insistências exótico-tropicais e me façam jus à essa maravilha urbana.





Ricardo Silva
São Paulo, 05 de julho de 2008




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